quinta-feira, 17 de novembro de 2016

OBSERVANDO O FAMILIAR

Caros Colegas e ASA,
O autor Gilberto Velho afirma que estamos sempre pressupondo o familiar como o conhecido,  isto porque dispomos de um mapa com o qual concebemos os cenários e situações sociais de nosso cotidiano. Estamos tão imerso em nosso cotidiano que nos tornamos cegos, perdendo a condição de análise e de compreensão interpretativa do mesmo. A realidade passa a ser concebida a partir de enquadramentos, das representações e de mapas mais complexos e  cristalizados que nos levam automaticamente a leitura estereotipada do que nos é familiar e  também do que é igualmente exótico. Saramago, escritor português, colocou no epígrafe de seu livro Ensaio sobre a cegueira, "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.  Chamando atenção exatamente para esta forma superficial de concebermos as coisas. Não existe distanciamento para aquele que se propõe a pesquisar, se lhe é exótico, a proposta é de se envolver com seu objeto de estudo e se lhe é familiar, segundo o Gilberto Velho trata-se de relativizar o seu lugar, ou trancendê-lo e poder "por-se no lugar do outro. Nesse sentido CLAUDIO MAGALHAES - quarta, 16 novembro 2016, 14:22, penso que não existe ambiguidade quanto a postura do pesquisador e seu objeto de pesquisa,  é preciso se envolver sim, mesmo porque, conforme o autor do texto em estudo, isto é inevitável, "Existe um envolvimento inevitável com o objeto de estudo e de que isso não constitui um defeito ou imperfeição já foi clara e precisamente enunciada” (BECKER, 1977 apud VELHO,1978)”. A produção do pesquisador tendo um viés interpretativo deve ser como o próprio autor diz, "constantemente testado, revisto e confrontado”.  Portanto o conhecimento produzido, resultado do seu trabalho investigativo é uma interpretação, em que os próprios pesquisados podem analisar criticamente. Nesse sentido no dia a dia do nosso ofício,  chama atenção aquelas situações em que para a maioria é de alguma forma algo, "natural”, "normal”, "que é assim mesmo”. Em uma sala de aula onde metade da turma tem uma excelente proficiência e a outra metade baixo desempenho, chama atenção daquele gestor que aborda esta situação com um olhar de pesquisador, que se sente instigado a entender o porque deste cenário negativo. O resultado do seu trabalho é uma interpretação que pode e deve ser criticada por outros investigadores. 
VELHO, Gilberto. Observando o Familiar. In: NUNES, Edson de Oliveira - A Aventura Sociologica, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.

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